O poder da mídia e a demonização da política

Hoje li dois artigos interessantes, um no Observatório da Imprensa e outro no blog do Nassif.

O primeiro, intitulado ‘o poder da mídia’, tratava da capacidade da dita grande imprensa influenciar o debate político no Brasil. Iniciava falando do mensalão e da óbvia influência sobre os votos dos ministros.

Isso indicaria o grande poder da mídia, afinal, capaz de influenciar as decisões da Corte Maior.

Mas, ao mesmo tempo, é perceptível que esse poder não foi capaz de influenciar o resultado das eleições (coisa tratada nos dois artigos, mas com mais profundidade no segundo, intitulado ‘as ilusões das análises políticas’).

Uma das coisas mais interessantes nos dois artigos é a indicação de uma pesquisa do Ibope sobre as preocupações dos brasileiros. Há um quadro comparativo entre 1989 e 2010.

Em 1989 20% dos entrevistados se preocupavam com o combate à corrupção. E, 2010, 15%.

Interessante, apesar de a imprensa estar o tempo todo martelando o tema corrupção, não consegue torná-lo o mais importante na mente dos brasileiros. Tanto em 1989 quanto em 2010, a saúde está no topo (44% em 89 e 66% em 2010), seguida por segurança pública, educação e emprego. Dos 8 assuntos que mais preocupam o brasileiro, tanto em 89 quanto em 2010, a corrupção é apenas o penúltimo.

Apesar disso, a mídia-travestida-de-partido insiste em defender seus candidatos com uma única estratégia – chamar os petistas de corruptos. É óbvio que isso não vai dar certo. Sorte para o PT, não é mesmo? Afinal, enquanto não houver alguém que consiga tratar dos assuntos que realmente nos preocupam (a nós, o povo), a oposição não vai ter espaço. Por isso a alternativa ao PT sairá das fileiras dos partidos da base, pois apenas dali surgirão nomes que os eleitores identificarão como responsáveis pela melhora em áreas que nos interessam. A oposição demo-tucana-midiática (udenista em seu discurso) terá o mesmo destino da UDN, perder sempre.

A grande falha da UDN (a de antes e a de agora) é tratar a política como se ela fosse uma luta entre o bem e o mal e não como o espaço para o diálogo e a busca de soluções.

O PT, que tinha um discurso “udenista” (moralista, messiânico, salvacionista), mudou e chegou ao poder. Não só chegou como se mantém e ganha cada vez mais espaço. E isso porque entendeu que é necessário conversar, dialogar, ceder, afinal, numa sociedade complexa como a nossa, todos os segmentos socais têm legitimidade para existir e prosperar – a sociedade não é apenas dos operários nem tampouco dos “aptos a sobreviver na selva liberal”. O “reformismo fraco” (como o chama André Singer), uma forma de ‘modernização conservadora’, cumpriu esse papel.

O triste é que esse discurso messiânico, moralista, transforma a saudável disputa política numa guerra santa. O mais triste é que o dano é geral. Cristãos e muçulmanos passam a ser vistos pela população como igualmente sanguinários – ou, no nosso caso, corruptos. Por isso a preocupação com o combate contra a corrupção é relativamente baixa (15% em 2010), afinal, se todos os políticos são safados, então isso não é um assunto relevante.

Essa demonização da política de modo amplo acaba por vitimar a própria política, que se torna assunto sobre o qual não se fala. O que é um contrassenso, afinal, é falando/dialogando que se faz política e se exerce a democracia. Aliás, não há diferença entre fazer política e viver numa democracia – apenas sociedades não democráticas limitam a atuação política.

Curiosamente, é num segmento relativamente bem educado (educação formal) da população que se vê o discurso mais raivoso – a UDN sempre foi mais forte nas cidades e entre os de maior escolaridade. A que será que isso se deve? Talvez ao tom elitista, excludente, escravista, que caracteriza o ethos de nossa classe-média-que-sonha-morar-na-Casa-Grande-e-tem-medo-de-ir-pra-senzala.

A demonização da política não se explica apenas por isso, claro. Aliás, nem creio que esse seja o fator preponderante. Essa demonização decorre da busca de legitimidade por parte da mídia para falar em nome das pessoas, como se a mídia fosse a própria ‘opinião pública’. As redações se tornaram partidos  que expressam opiniões e desejos como se fossem a única verdade possível. Mas para isso dar certo, para a mídia se tornar a (única) voz do povo, é necessário calar outras vozes – calar antes de tudo os representantes eleitos. E para fazer isso é necessário tirar a legitimidade dos fóruns tradicionais do fazer político, o Congresso, as eleições, dos próprios agentes públicos e dos representantes eleitos (que foram reduzidos a “políticos” – como se eles fossem outra coisa que não os escolhidos pelo povo para fazer valer sua vontade).

Talvez por isso a escolaridade dos mais raivosos udenistas seja alta, afinal, são os consumidores da informação devidamente processada e filtrada por essa mídia-partido que temos já há algum tempo. No fundo, não passam de uns pobres coitados facilmente manipuláveis, que repetem os bordões do partido-mídia sem perceber que eles só refletem a voz de deus (dos poucos donos de jornais) e não a voz do povo.

Talvez a ascensão econômica da classe C nos dê uma nova classe média, com um discurso menos udenista. Mas talvez não, afinal, apesar da influência da mídia não ser tão grande assim sobre corações e mentes, o trabalho de fazer da política algo feio, mal e sujo foi muito bem feito.

Como fazer para criar e dar força a um contra-discurso que ponha a política no lugar certo? Essa é a pergunta de um milhão de votos.

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