Protestos anticorrupção, ou, de como ainda estão querendo te enganar

Ontem foi dia de protesto anticorrupção.

Hoje de manhã só vi a repercussão no Bom Dia Brasil, em que um [forçadamente] exaltado Alexandre Garcia louvava o evento (que teria reunido 25 mil pessoas em Brasília) destacando duas coisas:

  1. A rejeição aos partidos políticos – segundo ele, bandeiras de alguns partidos (ele não disse quais) teriam sido vaiadas e retiradas do evento;
  2. O apoio da Igreja Católica.

Bem, fico pensando se na conta dos 25 mil estavam as pessoas que foram à Esplanada dos Ministérios para a Missa realizada pelo dia de Nossa Senhora de Aparecida…

Mas isso nem é tão relevante. O que me incomoda são os destaques do jornalista.

O primeiro deles, o pretenso caráter apolítico e apartidário do protesto.

Comecemos pelo apolítico.

Como um movimento pode ser apolítico? Ora, a defesa de qualquer ideia é necessariamente política.

Apenas o marketing pode se fingir de apolítico.

E eis o meu incômodo. Esse “movimento” não passa de uma flash mob, de marketing, de propaganda. É vazio de sentido. Afinal, todo mundo é contra a corrupção. Ser contra a corrupção é como ser contra a dor de dente.

É necessário fazer algo mais que ser contra para que qualquer movimento faça sentido. E este movimento não faz isso, não apresenta proposta alguma … tá, tudo bem, pede o fim do voto secreto no Parlamento e a aplicação da Lei da Ficha Limpa, mas, será que só isso é suficiente? A Lei da Ficha Limpa já existe, logo, pedí-la é meio redundante. Até entendo pedir o fim do voto secreto nas votações sobre cassação de mandatos, mas acreditar que isso seria solução é ingenuidade. Além disso, o voto nominal apenas retiraria o caráter institucional da cassação, fazendo-a parecer uma decisão pessoal de um grupo de deputados, quando, na verdade, deveria ser uma decisão do Parlamento como um todo, sem que este ou aquele fulano tentasse usar essa votação para parecer mais puro que o outro. Note-se que o voto secreto ajuda a evitar a pressão do governo e dos partidos sobre os parlamentares. Enfim, a discussão sobre o fim desse voto não passa apenas pela “revelação de quem é [supostamente] safado e vota contra uma cassação e quem [supostamente] é santo e vota sempre a favor de cassar o(a) deputado(a)” – aliás, é bom desconfiar do moralista com o dedo acusatório sempre apontando para alguém. O caráter institucional das decisões e a independência do parlamentar são outros temas que devem ser discutidos, mas não estão sendo. Voto revogatório, por exemplo, não é nem citado como uma possibilidade. Redução dos mandatos, sistema eleitoral, financiamento de campanha, regulamentação do lobby, são outros temas entre tantos que estão carnalmente vinculados ao assunto e que são solenemente ignorados pelos “manifestantes” e suas vassouras verde/amarelo.

Além disso, a pretensa despolitização do tema é um tiro no pé dos bem intencionados que foram à manifestação, afinal, como resolver o problema sem passar pela política, pelos partidos e pelos parlamentares? Lembre-se, são eles que votam as leis e regulamentos que serão necessários! Não dá pra afastar “a política”, é necessário usá-la.

Meu outro incômodo foi com a alegria com que Alexandre Garcia em seu editorial (logo, aprovado pela direção da empresa em que trabalha) saldou o apoio da Igreja Católica. O que é isso? Eles estão sonhando com outra marcha da família com deus? Só falou ele conclamar as Forças Armadas!

Bem, será que estou exagerando?

Gostaria de recomendar novamente o texto do Alex Castro. Nele, o Alex fala de seu incômodo com a pretensa desvinculação ideológica da manifestação, afinal, nenhuma ação humana é desprovida de ideologia.

Ainda sobre isso, gostaria de recomentar este texto do Eduardo Guimarães – ele fez o que nenhum veículo da imprensa fez, procurou saber quem são as pessoas que participam dessas manifestações e no que elas acreditam.

Sobre a [pretensa] ausência de ideologia, recomendo a minha própria postagem, afinal, esquerda e direita só se fingem de ausentes quando alguém quer te enganar, caro leitor.

Anúncios
Esse post foi publicado em Política. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s