Esquerda e direita ainda são conceitos úteis – ou, de como FHC tenta te enganar

Há algum tempo escrevi um post, meio de brincadeira meio a sério, considerando que não existe partido de esquerda no Brasil, no máximo, temos partidos trabalhistas que se opõem a partidos colonialistas.

Mas isso é o mesmo que afirmar que esquerda e direita não existem mais? Que são “apenas rótulos”? Como fez FHC numa recente entrevista ao jornal ‘A Província de São Paulo’?

Penso o contrário. Ainda existem boas razões para diferenciar esquerda de direita.

Mas, leiamos Norberto Bobbio, que tem uma opinião muito mais consistente que a minha e a de FHC, no livro “Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política”:

“Direita e Esquerda não são conceitos absolutos. Não são conceitos substantivos ou ontológicos. Não são qualidades intrínsecas no universo político. São lugares do ‘espaço político’. Representam uma determinada topologia política. Que nada tem a ver com a ontologia política”.

Ou seja, direita e esquerda não são palavras que dizem algo por si mesmas, mas servem para estabelecer diferenças num quadro político específico. Por exemplo, nos EUA os Democratas estão à esquerda dos Republicanos, mas é claro que os mesmos Democratas estão à direita do Partido Comunista Cubano.

Peraí, apareceu a palavra ‘comunista’. Ser de esquerda é ser comunista?

Vamos repetir, ‘esquerda’ ou ‘direita’ não querem dizer nada por si mesmas, assim, não dá pra reduzir ‘esquerda’ ao comunismo, socialismo ou quetais.

No caso do Brasil, os trabalhistas (PT, talvez PSB) estão à esquerda dos colonialistas (PSDB, DEM, PSD).

Mas, porque se faz essa confusão entre esquerda e socialismo? Bem, por uma séria de motivos, um deles é a campanha de desinformação da direita, que tanto diz que ‘esquerda’ e ‘direita’ são “apenas rótulos”, como reduz a esquerda ao comunismo stalinista.

E outra razão é que a esquerda sempre é o lado que pretende diminuir as desigualdades (o que torna fácil para a direita hidrófoba misturá-la com o comunismo). Voltemos ao Bobbio, que dizia:

“afirmar que a esquerda é igualitária não quer dizer que ela também é igualitarista […] uma coisa é a doutrina igualitária ou um movimento nela inspirado, que tendem a reduzir as desigualdades sociais e tornar menos penosas as desigualdades naturais; outra coisa é o igualitarismo, entendido como ‘igualdade de todos em tudo’.”

Traduzindo, a esquerda tem por objetivo reduzir (não eliminar) as desigualdades. A direita, não se importa com isso (crê que ‘cada um cuida do seu’) ou tende a buscar a manutenção de privilégios ou desigualdades.

Assim, quando FHC diz que essas palavras são “apenas rótulos” e, logo depois, tenta equalizar esquerda e comunismo soviético, ele só está trabalhando para seu partido (de direita), fingindo que não possui ideologia e tentando demonizar qualquer um que tente se definir como ‘esquerda’.

Cuidado! Não caia nesse papo da direita, que finge que não existe só pra ganhar seu voto.

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