O que me incomoda nos protestos anti-corrupção

Li este post do Alex Castro  e, além de concordar com ele, fiquei pensando que há outra coisa que me incomoda nesse “movimento anti-corrupção”: ele reduz tudo a uma questão moral e propõe como única solução o voluntarismo – “basta” que as pessoas sejam íntegras e “plim” o mundo está salvo.

Não sei se as pessoas são boas ou más por natureza, nem sei se as pessoas têm uma natureza, mas não dá pra solucionar os problemas do Brasil e do mundo apenas apelando para a boa vontade.

Esse tipo de moralismo raso só serve para organizar passeatas da família com deus… se bem que nem pra isso mais ele serve, afinal, um “protesto” feito por vassouras fincadas na areia da praia ou num gramado nem protesto é, torna-se no máximo uma “instalação artística”.

Aliás, esse moralismo é conservador, retrógrado, reacionário e, principalmente, autoritário, pois parte do pressuposto que não há diálogo possível, ou se é puro de coração ou um pecador inveterado, daí a expectativa por um salvador (um caçador de marajás ou algo assim) – e essa crença que a solução é mágica, uma intervenção divina, abre espaço para demagogos e ditadores, que prometem “limpar o Brasil”, mas não têm projeto de país, de desenvolvimento, nada (já vimos essa história antes, como tragédia e como farsa… mas alguns querem vive-la de novo!). Além disso, aliena as pessoas, pois faz parecer que basta que elas balancem vassouras e o salvador virá, elas próprias não precisam se engajar em discussões políticas (coisa chata, né?), não precisam entender como o parlamento funciona nem saber qual a origem do voto secreto no Plenário – ser simplesmente contra e esperar o salvador é muito mais cômodo e simples, né?

Tá, você é contra a corrupção, legal, mas, e daí? O que mais? Você é contra ou a favor da regulamentação do lobby? Do financiamento público de campanha? Do voto revogatório? Etc. etc. etc.

Não podemos acreditar que as soluções partam de um “coração puro”, precisamos de instituições e procedimentos regulamentados. Assim, não adianta empunhar vassouras coloridas e esperar que D. Sebastião volte e traga decência ao coração dos homens. Não adianta dizer que a política é feia, boba, suja e chata, pois fora dela não há salvação. Mas é necessário discutir ideias, não sacudir ferramentas de limpeza doméstica.

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