Os recentes acertos de nossa diplomacia

Parte da blogosfera está comentando duas atitudes da política internacional brasileira.

  1. A abstenção na votação do Conselho de Segurança sobre a criação de uma zona de exclusão aérea (e todo o mais necessário) na Líbia;
  2. A votação favorável ao envio de um emissário para verificar a situação dos direitos humanos no Irã.

Teve gente a favor de algumas coisas e gente contra.

No caso da abstenção, creio que votamos certo. A Líbia está em guerra civil e tomar um dos lados não significa salvar vidas. Ao contrário, pode até acirrar o conflito.

Mas entendo que é um ponto difícil, pois de um lado temos um ditador cruel e do outro uma aliança rebelde que tenta derrubá-lo (isso é tão… tão… star wars, né não?). Parece que há claramente um lado bom e outro mal, como nos filmes. Mas a vida é um tantinho mais complicada. Certamente há pessoas entre os insurgentes que se inspiraram nos movimentos da Tunísia e Egito (e na Primavera do Povos Árabes), mas é bom lembrar que a Líbia se divide em associações parentais (tribais) que agora lutam pelo poder. O inimigo comum é Kadafi e, nesse primeiro momento, é fácil conseguir união em torno de um objetivo comum, eliminá-lo. Mas, e depois? Quando os grupos concorrentes começarem a … concorrer? Com armas nas mãos? Uma missão civilizadora do ocidente irá salvar os selvagens? (só pra deixar claro, estou usando sarcasmo)

Veja bem, a solução passava por um acordo, pela busca da abertura de um espaço em que os diferentes líderes das diferentes forças envolvidas pudessem dialogar. As manifestações na Tunísia e no Egito não degringolaram para um conflito amplo (como até pareceu que iam), mas na Líbia a coisa logo começou a pegar fogo… e não se apaga fogo com gasolina caindo dos céus. Até o Chávez propôs o diálogo e, se dessem ouvidos a ele, Kadafi parecia disposto a sentar para conversar (tá, eu sei, ouvir o Chávez é uma coisa complicada, mas pelo menos dessa vez ele poderia de fato ajudar). Bem, claro que Kadafi estava disposto a conversar pois estava com medo da Praça Tahrir, e quando nenhum espaço para o diálogo se abriu, o medo aumentou. E quando um ditador sanguinário fica com medo, ele só pensa em sangue.

Assim, a postura do Brasil (e da Alemanha), foi correta, afinal, o problema nem foi a zona de exclusão aérea (que se tivesse saído antes poderia ter forçado um diálogo), o problema foi o “todas as medidas necessárias” (que os ianques logo entenderam como a promoção usual do big mac que eles sempre mandam: sanduíche, coca-cola e bomba, muita bomba).

Pode parecer cínico, frio, insensível, malvado até, dizer que é necessário conversar com um ditador, ainda mais um sanguinário (tem outro tipo?). Mas na vida real, eles têm armas e sabem usá-las, assim, para evitar mortes, é bom usar outros tipos de pressão.

Também é bom lembrar, como fizeram alguns analistas italianos, que os franceses e os americanos estão pensando em ganhar espaços comerciais naquele deserto com petróleo que é a Líbia (espaço, aliás, antes ocupado pelos italianos – não é à toa que eles estão reclamando tanto). No caso da França ainda há outro agravante, o Sarkozy tá jogando pra plateia interna, onde bombardear futuros imigrantes ilegais (sarcasmo, de novo) muçulmanos do norte da África pode render votos e melhorar sua combalida popularidade.

Nossa abstenção, mais que ajudar um ditador, significou que preferimos o diálogo às bombas e não compactuamos com a tomada de lados em assuntos internos de um país… ou, se vamos tomar um lado, que não seja bombardeando o outro.

Quanto ao segundo ponto, a aprovação ao envio de um observador de direitos humanos ao Irã, novamente acertamos. O Azenha acha que nos rendemos à diplomacia dos EUA, que usam a desculpa dos direitos humanos seletivamente para bombardear quem lhe interessa (como a Líbia) e fingem que esses mesmos problemas não ocorrem em países aliados, como o Bahrein. Discordo do Azenha. A votação favorável significa nossa independência. Explico: nossa diplomacia sempre se caracterizou como pacifista… e fez isso com grande sucesso. A defesa dos direitos humanos faz parte dessa caracterização. Como disse a embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo, o voto pela visita ao Irã não foi contra o Irã, mas um voto a favor do Conselho da ONU para os Direitos Humanos.

É curioso ver como a blogosfera autodenominada progressista usa a mesma estrutura de argumentos da blogosfera conservadora. O Azenha critica o voto favorável á fiscalização no Irã porque não votamos a favor de uma fiscalização em Guantánamo… apesar de que isso não foi posto em votação, logo, como poderíamos fazê-lo?

Nossa diplomacia está no caminho certo. Marca fortemente uma atitude pacifista e de defesa dos direitos humanos. E isso não é um rompimento de Dilma em relação a Lula, mas a continuidade (da marca) e evolução (da atitude).

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