Ainda estamos no século XVIII

A recente passagem do presidente norte-americano me lembrou um insight que tenho.

Vivemos no século XVIII.

Sim, estamos no século XVIII.

E o que isso significa?

No século XVIII éramos colônia, olhávamos para o Reino com admiração e ares de pedinte, pois de lá vinha o queijo e os tecidos. Aqui, plantávamos, cavávamos minérios, oprimíamos escravos, matávamos índios e exportávamos os frutos da terra (vegetais e minerais).

Em que pese alguns mineiros terem pensado num levante, eram quase todos uns filhinhos de papai, tanto que só o mais pobre deles acabou enforcado. Na Bahia, mais ou menos na mesma época, houve uma tentativa de rebelião, mas os “alfaiates” foram todos devidamente assassinados… bem, até que tentamos fazer a Revolução, sair do século XVIII e inventar nossa própria declaração de direitos do cidadão… mas fomos massacrados.

Em lugar disso, ao invés da Revolução, o Reino veio até nós. E pronto, nada precisava mudar.

De 1808 em diante, de Conciliação em Conciliação, até hoje adoramos mudar não mudando.

Pensemos em Lula, por exemplo, e seu trabalhismo conciliador tentando agradar a gregos e baianos, mas mantendo a mesma estrutura colonial… plantamos, cavamos minérios, oprimimos os desvalidos (temos os capitães de mato a polícia mais violenta e ineficiente possível), ainda matamos os índios e exportamos os frutos da terra em troca de queijos, tecidos, iPads e carros feitos no México.

Mas não é só isso que permanece mais ou menos o mesmo. Nossa mentalidade, nosso jeito de ver o mundo ainda é pré-revolucionário, pré-moderno, colonial.

Nossa elite econômica e intelectual encanta-se com o Reino (qualquer que seja ele) e seus produtos, seus estrategistas, seus presidentes… não à toa essa louvação toda a Obama. Só pra dar um exemplo de uma atitude diferente, no Chile perguntaram a Obama quando ele iria pedir perdão pelo fato dos EUA terem colaborado (e até incentivado) com o golpe militar que derrubou o presidente Allende e instaurou uma das mais sangrentas ditaduras sul-americanas. Aqui no Brasil, apresentadoras de TV chamam Obama de “nosso presidente”.

Isso explica porque nossa elite política ainda trata a coisa pública como coisa privada, e isso independentemente da coloração partidária, pois ainda veem os cargos públicos como concessões pessoais de poder. O fato de senadores e deputados licenciarem-se de seus cargos para ocupar secretarias estaduais, ministérios e quetais mostra que não têm vínculos com as pessoas que os elegeram (vulgo o povo) mas comprometimentos apenas com suas burocracias partidárias (cargos = boquinhas) e, no caso dos “bons”, com as ideologias que professam.

Mas não é só nossa elite. Nossa massa ainda é colonial. A falta de letramento e o desconhecimento da noção de cidadania ainda nos prendem ao século XVIII. Naquele tempo, os desvalidos buscavam alguém que lhes pudesse fazer favor e mercê, e acreditavam que só conseguiriam alterar suas condições de vida com a ajuda de algum “sinhô” (hoje, “dotô”) ou, pior, esperando por D. Sebastião. E hoje as coisas não são muito diferentes. As relações são mais pessoais que políticas e ainda entendemos que nossos representantes eleitos estão lá para nos arranjar favores pessoais e não para defender ideias ou propostas para o bem geral ou de nossos pares – ou o bem é “para mim” ou ele não me representa, não há meio termo nisso.

Nosso cristianismo mágico ainda nos prende à concepção do mundo de que os humildes herdarão a terra, logo, não devemos (e nem podemos) fazer nada por nós mesmos, afinal, mereceremos a Salvação por sermos como somos. Não nos salvamos, recebemos a Salvação como Graça… como quem recebe favor e mercê por piedade de alguém que está “acima de nós”. Pior, pois isso nos faz pensar que nossa única estratégia é sempre nos vitimizarmos… a culpa de nossa situação sempre é encontrada fora de nós e nunca se relaciona a nossas ações e escolhas.

Ainda vemos a sociedade como um espaço hierarquizado e não igualitário. A Revolução Francesa, para nós, não aconteceu, e ainda preferimos uma sociedade de estamentos… apenas sonhamos com o dia em que algum “Homem Bom” nos conseguirá alguma colocação no serviço público e poderemos consumir os produtos do Reino.

Aliás, nossa fixação com o Reino é tão grande que nem nos vemos como um “nós”. Sempre que falamos do Brasil e dos brasileiros nos tratamos na terceira pessoa. O Brasil e os brasileiros sempre serão um “eles” e nunca um “nós”. É como se fôssemos estrangeiros aqui e nossa verdadeira nacionalidade sempre estivesse além de nossas fronteiras.

Como mudar isso? Como nos retirar dessa vala histórica?

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