A esquerda não existe

O Jorge da Cunha Lima brinca que no Brasil todo mundo é de esquerda, até o Paulo Skaf e o Gilberto Kassab, e que “não há nenhum partido de direita no Brasil”.

Será mesmo?

O que são a direita e a esquerda no Brasil?

Essa nomenclatura cabe?

Bem, vamos deixar os conceitos de lado e olhar nosso quadro político.

De um lado, no governo, temos o PT. Em seus quadros temos ex-guerrilheiros maoistas, sindicalistas, professores, alguns profissionais liberais (minoritários), servidores públicos.

Dizem que, ideologicamente, o socialismo é importante no PT e muitas de suas tendências internas se denominam socialistas ou marxistas. Mas, na presidência, não vimos um partido socialista no poder. A Era Lula foi trabalhista. E Dilma Roussef segue no mesmo rumo.

E o que é o trabalhismo? Resumidamente, a busca de melhores condições de vida e renda para os trabalhadores por meio da conciliação com o Capital. Pode-se dizer que ideias socialistas ajudam o trabalhismo, mas ele define-se quase como uma rejeição ao socialismo, ou, pelo menos, à ideia de que há uma fratura inconciliável entre Capital e Trabalho. O trabalhismo é uma tendência reformadora, não revolucionária.

O PT, no poder, não optou pelo enfrentamento com o Capital… ao contrário, buscou condições de manutenção e desenvolvimento para o sistema financeiro concentrador que temos, além de procurar desenvolver o Capital nacional por meio de uma plataforma de inspiração desenvolvimentista – o PAC é um esboço de crescimento guiado/apoiado pelo Estado, mas que favorece o capital privado, a acumulação de capital pelos proprietários e pretende beneficiar os trabalhadores por meio do crescimento geral da economia e não por alguma forma de distribuição socialista da riqueza.

Por mais que a retórica petista refira-se ao socialismo ou que algumas de suas lideranças tenham histórico até na luta armada, o PT de hoje não é um partido socialista (pergunto-me se já foi algum dia).

Mas, o trabalhismo (que no Brasil tem como figura emblemática o presidente e ditador Getúlio Vargas) é de esquerda?

Há controvérsias. Se você for socialista e/ou revolucionário, ele é de direita, afinal, pretende apenas reformar a sociedade de classes sem aboli-la. Mas se você é um liberal, que crê em Estado Mínimo e coisas assim, ele pode ser de esquerda.

Bem, está na hora de definir, em linhas gerais, esquerda.

Esquerda é uma tendência à busca da redução das desigualdades econômicas, seja por meio da reforma (trabalhismo) ou da revolução (extrema esquerda, socialismo, jacobinismo).

Partindo-se dessa definição, o PT até pode ser um partido de esquerda, mas num espectro amplo, que incorpore de revolucionários e reformadores.

Na oposição, o principal partido é o PSDB. E o que pretende o PSDB? Quando na presidência, adotou como referência teórica a ‘teoria da dependência’ que, em linha gerais, advoga que os países de industrialização tardia e parcial, caracterizados pela exportação de produtos agrícolas e minerais preferencialmente in natura, como o Brasil, não podem aspirar ao desenvolvimento econômico e social dos países industrializados da Europa e América do Norte. Nosso limite seria o desenvolvimento associado, ou seja, só poderíamos aspirar a comer as sobras que caíssem da mesa do país rico a que nos atrelássemos carnalmente. Com base nisso, adotou-se o Consenso de Washington, com a desregulamentação do mercado financeiro, privatização, redução de investimentos públicos e reforma do Estado (na verdade, sua redução e busca de maior eficiência gerencial).

O discurso dos tucanos soava como modernização. Falava-se em abandonar a herança getulista e coisas assim. Na prática, houve uma estagnação econômica e piora nos serviços públicos já deficitários.

Aqui cabe tecer considerações sobre a direita e a nossa direita.

Durante a Revolução Francesa, a Direita (origem do termo) foi definida pela contra-revolução. Eram aqueles que pelos mais diferentes motivos tentavam barrar o avanço das propostas igualitárias dos jacobinos. Direita, pois, só existe como contraponto à esquerda. E, no Brasil, não poderia ser diferente. Nossa direita define-se por ser contra mudanças estruturais em nossa estratificação social. Seu discurso, por mais que abuse de uma retórica de modernização, não passa da reprodução de um discurso colonial… aliás, essa é uma característica única de nossa direita… ela não é nacionalista, muito pelo contrário, ela se ressente de sua posição colonial mas não busca a independência, apenas um relacionamento melhor com o Reino.

O PSDB (e o DEM) põe-se à direita do espectro político pois seus programas não propõem uma ação clara e direta do Estado para a redução das desigualdades sociais. Não são nem revolucionários (óbvio) nem reformistas (no sentido de promoverem reformas sociais) – as reformas que advogam (da previdência, do Estado, política, fiscal) buscam mais o reordenamento de um quadro social já existente com vistas à sua manutenção, ou seja, à manutenção do caráter agrário, exportador de commodities, (portanto) dependente da demanda externa, que manterá baixa nossa mobilidade social e politicamente nos prenderá ao alinhamento com o Reino da vez.

Nesse sentido, há mais coerência programática na nossa esquerda, seja trabalhista ou socialista. A direita põe-se apenas como anteparo ao avanço da esquerda (eles são “do contra”). Vimos isso na última campanha eleitoral, quando os demotucanos foram incapazes de apresentar uma proposta alternativa de desenvolvimento, chegando seu candidato a propor aumentos irreais do salário mínimo e um 13ª para o bolsa família, tentando incorporar a retórica de partidos da extrema esquerda brasileira e sua lógica distributiva/assistencialista. A falta de propostas políticas refletiu-se no uso de questões morais e religiosas na campanha.

Mas é importante destacar a falta de nacionalismo em nossa direita. Essa marca peculiar é que a torna um movimento danoso ao país. Sua a mentalidade colonial, dependente de um Reino e pouco atenta à necessidade de um caminho de desenvolvimento que incorpore nossas massas à produção (de mercadorias e conhecimento) e ao consumo (de mercadorias e conhecimento), impede o país de deslanchar.

No fundo, depois da queda do Muro, propostas jacobinas não fazem mais sentido. Até o trabalhismo, que era um movimento que refreava a revolução, portanto de direita, acabou virando esquerda. A extrema direita, porém, ainda existe. A manutenção de uma situação de desigualdade ainda é benéfica a muitos, afinal, tiram seu poder do fato de serem aqueles que podem dar benesses aos “de baixo” (quem aí se lembra do ACM? Paradigma desse tipo de figura). Por isso nossa direita radicaliza-se, pois o trabalhismo do PT a empurrou aos limites do espectro político conservador – o que a torna ainda mais caricatural, pois teve de voltar seu discurso para a década de 1960, com o medo dos “comunistas” e questões morais e religiosas ocupando o centro de sua propaganda. E essa retórica só não deu certo pois vivíamos um momento de euforia econômica, quando naturalmente há uma tendência à manutenção do grupo já instalado no poder. Mas essa retórica ainda tem chance de dar certo, afinal, nossa sociedade ainda mantém-se presa a padrões de mentalidade colonial.

Em 2014, ano de Copa, com cidades parcialmente renovadas por causa desse evento esportivo e possibilidade de uma situação econômica favorável, a tendência é que a direita não tenha chance de voltar à presidência, mas justamente esse fator é que deve fortalecer sua retórica colonial e moralista.

No Brasil, em larga medida, não há esquerda. Não há enfrentamento com o Capital. Todos o defendem – e apenas alguns sabem que há um “outro lado” social que não pode ser esquecido. Na prática, temos de um lado os trabalhistas (reformadores, não pelo bem comum, mas pela defesa do Capital) e, do outro, os colonialistas – estes últimos podem ser chamados de direita, mas o caráter colonial de sua mentalidade é que os faz tentar barras alterações em nossa hierarquização social, ou seja, é seu colonialismo que os joga à direita – mas pelo menos eles estão claramente à direita.

Assim, ao contrário do que pensa o Jorge da Cunha Lima, o que não existe no Brasil é um partido de esquerda – tá todo mundo num amplo centro que até talvez seja canhoto, mas, esquerda? Por isso o PCdoB faz aliança com Kassab na Câmara de Vereadores de São Paulo e busca cantores para puxar votos, Miguel Arraes era presidente de um partido ‘Socialista’ (e seu neto é hoje a principal estrela desse partido) que teve o empresário burguês presidente da FIESP como candidato ao governo de São Paulo, e o PT não assusta mais a velhinha de Taubaté.

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Pós-escrito (em 18/04/2012)

Em complemento a este post, sugiro a leitura do Esquerda e direita ainda são conceitos úteis, ou de como FHC tenta te enganar.

É bom deixar claro que acredito que a nomenclatura ‘esquerda’ e ‘direita’, per se, é pouco precisa para definir a atuação de um partido. No caso brasileiro, creio que ‘trabalhistas’ e ‘colonialistas’ são termos que explicitam melhor as características dos partidos. Talvez pudéssemos criar uma terceira categoria, para inserir PMDB e PSD, que são apenas aglomerados de pessoas que buscam cargos no Estado. Talvez possamos chamá-los de ‘fisiológicos’. Mas estes partidos tendem a reunir colonialistas e alguns de seus personagens não buscam apenas uma boquinha para si e os seus mas defendem interesses muito claros, como os latifundiários agroexportadores. Assim, creio ser melhor considerá-los apenas uma subespécie dos colonialistas.

Entretanto, se quisermos estabelecer uma topografia que relacione estes tipos partidários, os trabalhistas estão à esquerda dos colonialistas, ou, dito de outro modo, os colonialistas estão à direita dos trabalhistas – depende do que se quiser enfatizar.

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