Presidenta Dilma foi ao aniversário da Folha

A presidenta Dilma foi à celebração do aniversário de 90 anos da Folha de São Paulo.

Houve quem não gostasse, quem achasse lamentável, quem achasse inútil, e mesmo quem tentasse entender alguma ação política por trás.

Por mim, creio que foi apenas a repetição do discurso de posse, em que a presidenta afirmou estender a mão a todos.

Essa ida não me incomoda. Mas é importante ver se este ‘estender a mão’ não significa entregar os anéis. Esse ato isolado não quer dizer nada, ou quer dizer muito pouco. É necessário ver como se encaminhará nossa versão da Ley de Medios para saber se a ida ao aniversário da Folha foi [mesmo] um ato de ‘estender a mão’ ou se foi uma capitulação.

De qualquer modo, não dá pra deixar passar em branco o editorial do Estado de São Paulo, concorrente da Folha, sobre a presença da presidenta no regabofe de aniversário.

No editorial, o Estadão diz que a presença da presidenta

“Pode significar o resgate das relações de respeito e de compreensão mútua dos respectivos papéis que devem caracterizar a convivência entre o poder público e a mídia numa sociedade democrática.”

Destaco que a frase começa com um pode. Lá vai o Estadão duvidando da palavra da comunista malvada presidenta.

Se bem que esse ‘pode‘ pode ser lido de outra forma, afinal, pode apenas ser um ato falho, em que o Estadão já reconhece a dificuldade que ele terá em tratar o governo dos comunistas malvados que comem criancinhas do PT com o respeito que os governos legitimamente eleitos merecem. Afinal, alguém tem a mínima esperança que a mídia vá tratar de política de modo plural, respeitando a diversidade? Eu não tenho nenhuma.

E o trecho seguinte? Leiam só:

“o passado recente de permanente beligerância do poder central contra a imprensa livre é página virada”

Segundo o Estadão, a beligerância era do poder central contra imprensa… a imprensa coitada, não tomou partido, não publicou fichas falsas, não desrespeitou a liturgia do cargo presidencial e não deturpou nenhuma notícia (e ainda deturpa, vide a reporcagem sobre as alterações no programa Minha Casa, Minha Vida, comentada aqui ontem). Nada disso aconteceu. O que aconteceu foi que o governo do PT invadiu redações, prendeu jornalistas, fechou jornais, censurou… bem, isso talvez tenha acontecido em alguma realidade paralela, não é mesmo? E como não se pode provar que não existem realidades paralelas, a culpa da seca na Etiópia é do Lula.

Mas o editorial também cita o dono da Folha.

“Otávio Frias Filho, lembrou que, em nome do leitor, os jornalistas exercem a função de fiscais do governo, tendo sempre um compromisso com a democracia e com o desenvolvimento do País.”

Entre os compromissos com o país e os compromissos com os lucros da empresa e os interesses do dono, com quem será que fica o jornal, hem? Pô editorialista do Estadão, suspensão de descrença tem limite, viu?

E que papo é esse de “em nome do leitor”? Quando foi que os jornalistas receberam a competência de fazer algo “em nome do leitor”? Você concedeu isso a eles? Eu não…

Mas não foi só isso, o Estadão dá à imprensa um peso maior ainda, vejam só:

“Essa alusão aos pesos e contrapesos que mantêm o equilíbrio da convivência democrática”

O sistema de freios e contrapesos implica na existência de poderes públicos (repito, públicos) instituidos e com legitimidade para contrabalançar a influência uns dos outros. Empresas privadas cujo objetivo é o lucro não se põem no mesmo nível dos poderes constituídos da República. Lhes falta a legitimidade institucional, eleitoral e legislativa para tanto.

Empresas privadas não possuem estofo para ocupar esse lugar pretendido pelos jornalões. É abusar da ingenuidade do leitor.

Principalmente, é “terceirizar” a política e a democracia.

Democracia se faz com participação popular, não com redatores dizendo em que o povo deve acreditar.

Os jornais não têm mandato para representar ninguém. Cuidado com essa de que grandes empresas privadas são o bastião da democracia.

E, por serem empresas privadas, a confusão entre o que é interesse privado e público, não tem barreiras – dentro do jornal não há freios e contrapesos ao poder do dono. Nem transparência… afinal, salsichas e notícias, vc sabe como são feitas?

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2 respostas para Presidenta Dilma foi ao aniversário da Folha

  1. Carlos disse:

    Engraçado, Paulo. Você escreveu que a ida da Dilma à festinha da Folha não lhe incomoda. Mas o seu texto aumentou minha convicção de que ela não devia ter ido. De qualquer forma, como você disse, o importante agora é ficarmos atentos aos próximos movimentos. Para garantir a democracia, precisamos mesmo é de uma boa “ley de medios”. E não dessa imprensa ultrapassada dando uma de fiscal da política.

  2. paulo soares disse:

    É… a ida não me incomoda, mas que deixa uma pulginha atrás da orelha, isso deixa…

    A se acompanhar os próximos movimentos.

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