O ateísmo voltou à blogosfera

O ateísmo voltou a ser discutido em parte da blogosfera.

Nos blogs que leio, neste ano da Graça de 2011, eu vi primeiro no Liberal, Libertário, Libertino. Mas também apareceu no Biajoni, no Marcos Donizetti, Index, Um drible nas certezas (nesses três em forma de conversa), no Sociologia do Absurdo (aqui e aqui), no Idelber (O biscoito fino e a massa – em forma de retratação por um possível exagero num post do ano passado) e no Amálgama (por Bruno Cava).

Eu comentei em alguns desses posts e recebi uma sugestão de leitura sobre “amparos” à moralidade, que me levou ao Dr.Plausível e uma série de textos sobre a hipótese plausível da moralidade.

Gostei das contribuições do Carlos, no Sociologia do Absurdo, e do Bruno, no Amálgama. Ambos consideram que um ateísmo militante, que tenha como foco a expansão da descrença, ou leva a “consequências não antecipadas” (como o aumento da animosidade de religiosos mais renitentes contra a ciência e o fechamento do diálogo) ou nos prende a um falso dilema, afinal, o problema não são as crenças mas o que se faz com elas.

Eu mesmo já tinha começado a pensar no assunto, pelo viés da tolerância religiosa (aqui e aqui).

Antes de mais nada, tendo a seguir a linha do Carlos e do Bruno, considerando que o foco não é “o ateísmo em si”, mas as liberdades individuais, o respeito à pessoa humana e à diferença.

Todavia, o André Egg (foi ele, né?)Leonardo de Souza, no post ‘dawkins, o zagueirão’, levantou um ponto muito importante. Diante de tantos abusos por parte de grupos religiosos, como lavagem cerebral de crianças, ataques de ódio contra minorias e até mesmo fraudes científicas, não dá pra ser complacente. É necessário apresentar uma crítica e uma resistência mais forte. Como diria Norberto Bobbio, não dá pra tolerar a intolerância. E, por vezes, é necessário ser duro, adotar um discurso também intolerante… mas de uma intolerância qualificada, que Bobbio chamava de intolerância positiva, pois não transigir com o mal, não permitir seu cultivo, é necessário.

O problema é que boa parte do discurso contra a religiosidade imbecilizada tende a adotar um cientificismo tão danoso quanto. É bom dar uma olhada no ‘Dialética do Esclarecimento‘, do Adorno e do Horkheimer – lá há uma importante consideração sobre a mitificação do esclarecimento e sua transformação num instrumento que não difere de seu oposto no que se refere a gerar idades de trevas.

Creio que o Dr.Plausível é um exemplo disso (ou mais qualificadamente, Dawkins, no ‘gene egoísta’, também é). Reduzir a moralidade (aliás, reduzir a cultura, ideologia e qualquer produto humano) à biologia é repetir a mesma busca pelo Uno feita pelos platônicos. É metafísica. E brandir o método científico como uma diferenciação não passa de um recurso retórico.

Tem um livro de divulgação científica intitulado ‘Criação Imperfeita’ em que o autor, Marcelo Gleiser, confessadamente ateu, lembra que o método científico tem limites… como ele escreve, “só conhecemos aquilo que podemos medir, e como não medimos tudo…” Assim, voltando a Adorno, entronizar esse método ou o bezerro de ouro não faz tanta diferença assim. Um salto de fé sempre será necessário.

A “questão do ateísmo” não é científica. É política.

Cientificizá-la é reduzi-la, na prática (que é o que importa), a um confronto entre divindades diferentes. E perder o foco do que realmente importa.

E o que importa é que a sociedade seja democrática, livre, as minorias tenham direitos e as crianças sejam tratadas com gentileza e não sejam manipuladas por sacerdotes ou mesmo por seus pais numa direção que desrespeite a liberdade, a democracia e as minorias.

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14 respostas para O ateísmo voltou à blogosfera

  1. Carlos disse:

    Gostei muito desse trecho: “Reduzir a moralidade (aliás, reduzir a cultura, ideologia e qualquer produto humano) à biologia é repetir a mesma busca pelo Uno feita pelos platônicos. É metafísica. E brandir o método científico como uma diferenciação não passa de um recurso retórico.”

    O que está me encucando agora (comentei no Idelber e no Bruno Cava) é o ponto que você mencionou no final. Como proteger as crianças, especialmente dos pais. Lá no Idelber alguém disse que as crianças sabem se proteger. Mas não acho que seja tão simples assim, não…

  2. paulo soares disse:

    Penso de modo semelhante.
    Não acho que as crianças possam se proteger.

    Daí a importância de trazer o tema para onde ele realmente importa, a política. Pois, por mais fechados e alienantes que sejam os pais e/ou ambiente familiar, eles não poderão “proteger” seus filhos das influências ‘externas’.

    Por isso me preocupa igrejas controlarem emissoras de TV ou venderem pacotes de TV à cabo para “os fiéis”, pois isso dificulta o contato dessas crianças com a sociedade mais plural que a cerca. Pra ficar num exemplo em que já existe legislação mas ela é desrespeitada.

    O ateísmo entra como um elemento que ajuda a fazer barulho, mas, se for um fim em si mesmo, como disse o Cava, ou se for parte de uma luta entre os “certos” (da ciência) contra os “errados” (da fé), perde-se o foco do que realmente importa.

  3. Carlos disse:

    A minha preocupação maior nem é com as influências externas. Mas com as “internas”. O mais difícil, quase impossível, é proteger as crianças da influência dos pais.

  4. Biajoni disse:

    bom post-resumo & conclusão da discussão.
    apenas duas coisinhas:
    1 – dawkins é cientista mas o livro em questão “deus, um delírio” não é só um “ataque da ciência à religião”, como foi vendido. dawkins ataca também por outros ângulos. E, mais importante, é um ataque da lógica contra o misticismo, como quando ele mostra como “místicos” manipulam suas massas.
    2 – recentemente, parece que dawkins abrandou o discurso anti-religião e intensificou o discurso anti-fanatismo. vi, não lembro onde, que ele disse algo como “as pessoas sempre terão crenças pessoais, mas não podem querer que outras partilhem a mesma crença delas”. algo assim. achei bom. e bonito. nesse sentido, ainda sou joseph campbell que diz que a mitologia deve ser ensinada à criança como lendas – e os ensinamentos contidos nelas, independente da precisão histórica, podem calar fundo na alma dos jovens, como EXEMPLOS.

    • paulo soares disse:

      Obrigado.

      A intenção era mesmo resumir e destacar o que eu achei mais coerente.

      Se bem que eu nem tava pensando tanto no ‘deus, um delírio’, que considero um manifesto muito bom, mas em pessoas que lêem ‘o gene egoísta’ e “descobrem” que o sentido da vida é a reprodução do genoma (não que o dawkins tenha dito exatamente isso, mas já percebi que é isso que muita gente lê).

      E já que estamos falando do dawkins, vi uma entevista dele (no you tube e não tenho mais o link nem a referência, desculpe) em que ele diz mais ou menos o que o Campbell disse. No caso, ele falava que a bíblia podia ser lida como uma bela peça de literatura, com histórias edificantes e coisas assim… se bem que eu acho que talvez o velho testamento deva pegar uma censura mais alta, hehe

  5. André Egg disse:

    Dawkins o zagueirão é texto do Leonardo de Souza. Eu sou o do “Um drible nas certezas” um blog que briga ao mesmo tempo com os fundamentalistas evangélicos e com os ateus cientificistas.

    Belo texto, foi ao ponto, assim como também acho ótimo o que escreveu o Bruno Cava.

    A questão que você toca aqui, sobre o fato de crianças serem prisioneiras da religiosidade dos pais, é realmente bem forte, e eu senti isso na pele. Eu morei de um ano de idade até os seis num seminário interno, fundamentalista até os ossos, no interior de São Paulo, onde meu pai era aluno.

    Realmente, o controle excessivo dos pais sobre os filhos é um problema seríssimo do fundamentalismo evangélico, envolve uma noção tosca de “não se conformar com o mundo”, visto como diabólico e cheio de pecados à espreita.

    Por outro lado, o discurso ateísta tipo Dawkins tem poucas chances de atingir este público carente de um discurso libertador, que existe dentro do cristianismo (chamado progressista ou liberal) com muito mais apelo nesses casos. Digo por experiência própria.

    • paulo soares disse:

      Primeiro, desculpa a confusão, é que colei tanto link que uma hora me perdi sobre quem escreveu o que…

      Mas, pois é, a fragilidade das crianças nesses assuntos é muito grande, especialmente diante da autoridade dos pais – que deve ser respeitada, afinal de contas.

      E, como vc disse, um proselitismo ateu não entrará no lar e nem na mente de muitas pessoas.

      O que só reforça a necessidade de se garantir a pluralidade de discursos. E interessante vc ter chamado a atenção pra isso, pois realmente a pluralidade de discursos religiosos é bem mais importante que o proselitismo ateu, pois, de um modo ou de outro, os jovens sempre verão que há opções além do “ou vc está comigo ou contra mim (e com o demo)”.

      Pena que no Brasil não há muita diversidade religiosa… temos diversas denominações cristãs, mas se tivéssemos mais religiões de tradições diferentes talvez aprendessemos a conviver melhor com os outros.

      • André Egg disse:

        Eu acho que deve haver limites colocados pela sociedade em relação à autoridade dos pais. Principalmente por que ela usada para muitos tipos de abusos e violências. Aquela de dizer que um pai é dono de seu filho já era.

        Por outro lado, a questão da diversidade de confissões religiosas é mesmo muito mais importante que a predominância do ateísmo. Como a gente vê em muitos textos sobre o tema, o ateísmo que Dawkins consegue mobilizar é algo que pode ser chamado de “fundamentalismo naturalista”, ou o que nós historiadores conhecemos bem nos estudos sobre o cientificismo do século XIX e o positivismo.

        O Brasil tem um Estado razoavelmente laico, e uma razoável diversidade religiosa – ao menos em alguns grandes centros. O tipo de catolicismo sincrético que é majoritário no país também tem muitas vantagens sobre o europeu neste aspecto. Sobretudo, considero muito positivo o projeto de Ensino Religioso que se implantou, especialmente por valorizar esta abordagem pluralista, muito necessária em tempos de aumento do ativismo de alguns grupos religiosos no país.

      • paulo soares disse:

        Oi,
        Vc tocou noutro ponto importante. O ecletismo de nosso catolicismo ajudou a manter um clima de tolerância religiosa bem grande, apesar de certa rejeição a cultos afro (se bem que talvez mais vinculada a questões raciais).

        Nossa versão do kardecismo também ajudou nisso. Se bem que contribui muito para a “redução ao mesmo”, pois tende a aproximar coisas diferentes numa perspectiva evolucionista tão… tão século XIX.

        Mas o avanço pentecostal, tanto entre os protestantes/evangélicos como entre os carismáticos, deu novo ar a uma relação menos tolerante em nosso cristianismo. O combate à teologia da libertação também contribuiu para um “regresso conservador”, em que a intolerância é apenas mais um aspecto de todo um novo… digamos… código de conduta religiosa.

        E, novamente, acabamos na política…

  6. Parabéns, Paulo, pelo lúcido texto. Concordo com suas ideias: a causa “ateísmo em si”, não é um combate científico, no sentido estrito; trata-se mais de um combate político.
    Também apreciei bastante a posição do Bruno, tanto no texto dele lá no Amálgama, quanto no comentário que ele deixou lá na retratação do Idelber.
    Só gostaria de lhe pedir uma modificação, por favor: o autor do texto “Dawkins, o zagueirão” não foi o meu amigo André Egg, mas eu mesmo, lá no Terceira Margem do Sena. Obrigado se você puder corrigir a informação.
    Abraço.

    • paulo soares disse:

      Oi,

      Já corrigi. O próprio André já havia me avisado.

      E desculpa a confusão, é que colei tanto link e num certo momento já nem sabia mais quem escreveu o que…

  7. Valeu pela correção, Paulo. Nem precisa se desculpar, são tantos textos sobre Dawkins que a gente embanana mesmo.
    O engraçado é que o Idelber também atribuiu a autoria do meu texto a outra pessoa… Vai ver alguém fez um “trabalho” para amaldiçoar o texto…
    Não acredito em bruxas, pero que los hay, los hay…
    Abraço.

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  9. Pingback: Guia incompleto de leituras sobre Dawkins e adjacências – A Terceira Margem do Sena

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