Mubarak renunciou

Mubarak renunciou.

Após um discurso na TV em que afirmava permanecer, mudou de ideia e renunciou.

Logo após o pronunciamento do ditador uma onda de raiva espalhou-se pelo Egito. O povo estava cansado de ser tripudiado. Sua vontade era clara, ao ditador só restava obedecer.

Na praça Tahrir milhares retiraram os sapatos e os abanavam no ar – sinal de desrespeito em relação ao ditador.

Sexta é o dia de ir às mesquitas, o melhor dia para mobilizar multidões. Desde a noite de quinta a população intuitivamente já sabia o que fazer. Tenho certeza que no Cairo, em Alexandria e mesmo nas menores cidades do Egito sabia-se que hoje seria feita a maior mobilização de todas. A Aljazeera diz que organizadores esperavam reunir vinte milhões de pessoas nas ruas de todo o país para a ‘Farewell Friday’, a Sexta-Feira do Adeus.

Esse cheiro de mobilização e a certeza de que o exército não impediria as massas de se moverem devem ter convencido o ditador que não dava mais. Ou melhor, devem ter convencido o exército que não dava mais para sustentá-lo e, se o exército não se pusesse ao lado do povo, o desejo de mudança se aprofundaria. Assim, melhor perder Mubarak para preservar os dedos.

A questão é, as Forças Armadas terão paciência para esperar a lenta desmobilização do povo? Ou tentarão acomodar uma nova ditadura rapidamente? O atual momento de conciliação entre povo e forças armadas pode perdurar, mas pode rapidamente tornar-se aversão, afinal, Mubarak não estava só, ele era a face de uma ditadura militar.

O papel do exército é, obviamento, contrarrevolucionário, mas como ele desempenhará esse papel? Aceitará uma modernização conservadora? A ampliação de espaços democráticos? A organização sindical?

É bom lembrar que os trabalhadores iniciaram uma greve geral no Egito há alguns dias e exércitos nunca sabem lidar muito bem com sindicatos livres e atuantes.

ElBaradei foi lembrado por alguns jornais, mas ele não me parece ter representatividade junto à população para ocupar um lugar de destaque no governo de transição e menos ainda num novo governo eventualmente a ser eleito em setembro. Talvez nesse primeiro momento, por seu trânsito internacional, deem-lhe um espaço nas Relações Exteriores ou nos contatos com os países ocidentais. Talvez. É importante ter em mente que seu nome não foi lembrado para compor nenhuma comissão de negociação dos manifestantes com o governo.

Este é o momento de novas lideranças surgirem, mas elas precisam de algum respaldo popular. Não bastarão conexões com as Forças Armadas ou com as potências ocidentais e Israel.

E a Irmandade Muçulmana? Penso que eles não irão querer aparecer muito neste momento. Devem optar por estratégias de sobrevivência aos mais variados cenários, assim, procurarão consolidar uma imagem de auxiliadores da população antes de alçarem voos mais altos. Eles trabalham com uma escala de tempo diferente. Numa eventual eleição para o parlamento, deverão poder medir o espaço que poderão ocupar.

Mas a revolução foi secular e democrática. O problema era político. Novos problemas só começarão a aparecer agora, quando parte da população se desmobilizar e apenas os grupos mais organziados começarem a jogar o novo xadrez egípcio do poder.

Por falar nisso, qual será o próximo país nesse dominó árabe-democrático?

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