Sobre a ideologia do PCdoB

[Este post foi editado em 29/11/2017]

Originalmente, uma crítica à aliança entre PCdoB e DEM no Município de São Paulo em 2011 (quando o prefeito era o Kassab), optei por fazer uma brevíssima síntese sobre a ideologia comunista. Segue abaixo:

Primeiro ponto: o que querem os comunistas?

Resposta: viver em uma sociedade mais justa.

Como assim, mais justa?

Socialistas e comunistas acreditam que a fonte de toda a riqueza é o trabalho (aliás, não apenas eles, pois essa ideia também é compartilhada por Adam Smith, ninguém mais ninguém menos que o pai do Liberalismo). O trabalho é a fonte da riqueza pois apenas por meio dele a matéria bruta é transformada em bens e instrumentos de valor.

Já que é o trabalho que gera a riqueza, o mais justo é que ela retorne a quem a gerou – o trabalhador. Por isso os socialistas e comunistas criticam a grande desigualdade social. Para eles, os trabalhadores fazem jus a uma parcela proporcional da riqueza que geram. No capitalismo, a maior parte da riqueza gerada pelos trabalhadores fica com os proprietários dos meios de produção (os donos das fábricas e das fazendas, que controlam as máquinas e os equipamentos). Para Marx, essas máquinas deveriam ser de propriedade dos trabalhadores – deveriam ser socializadas. Assim, as fábricas e as fazendas se tornariam espaços de trabalho coletivo e toda a riqueza gerada seria distribuída proporcionalmente entre todos os trabalhadores. A expressão “a cada um de acordo com o seu trabalho” é uma das máximas socialistas.

A socialização dos meios de produção seria um primeiro passo. Marx vai mais longe e considera que as decisões sobre a produção e sobre a “administração das coisas” também devem ser coletivas – em outras palavras, democráticas. Ele acreditava que movimentos como “A Comuna de Paris” indicavam um caminho para reorganizar a sociedade.

Em síntese, os comunistas pregam a distribuição mais justa da riqueza por meio da socialização dos meios de produção. Propõem também a ampliação da participação dos trabalhadores no processo de decisão, sejam decisões administrativas no local de trabalho, sejam decisões políticas de âmbito mais geral.

Creio que podemos resumir a proposta socialista em uma palavra: solidariedade.

A ênfase do capitalismo é a competição, seja entre empresas, seja entre indivíduos. O Socialismo e o comunismo propõem um caminho oposto. Em vez de competição, colaboração. A união dos trabalhadores, a divisão mais proporcional da riqueza e a participação de todos nos processos decisórios – tudo isso levaria à construção de uma sociedade mais justa.

Gostaria de sugerir o livro “Marx estava certo”, de Terry Eagleton. Nele há uma apresentação bem didática das críticas que se fazem ao marxismo e suas respostas.

Note-se que o socialismo é anterior a Marx, mas ele foi o principal teórico do movimento e, quer seja para concordar ou para criticá-lo, trata-se de leitura obrigatória.

Espero ter ajudado. Se alguém tiver dúvidas, deixa na caixa de comentários que eu respondo.

Uma última obervação. Hoje em dia fala-se muito em um tal de “marxismo cultural”, que seria um instrumento de desagregação social e da família – preciso deixar claro que isso não existe. Isso não passa de propaganda contrária ao marxismo, mas baseada em uma série de falsidades. Sobre o “marxismo cultural”, gostaria de sugerir dois breves artigos. O primeiro, escrito por Jason Wilson, jornalista e escritor australiano – em inglês aqui (clique para ir ao site do jornal britânico ‘The Guardian’), mas tem uma tradução aqui, no site ‘El Coyote’. O segundo, escrito pelo professor Bertone Sousa, da Universidade Federal de Tocantins (clique aqui).

Abaixo, um brevíssimo histórico do Partido Comunista no Brasil.

  1. O Partido Comunista nasceu no Brasil em 1922. Denominava-se Partido Comunista do Brasil, mas a sigla era PCB;
  2. Em 1956 Nikita Kruschev, que havia se tornado o líder da antiga URSS, denunciou os crimes de Stálin e iniciou algumas reformas na União Soviética e na organização do movimento comunista internacional – por exemplo, a nova diretriz era que os partidos comunistas deveriam iniciar uma fase de convivência com o capitalismo, aliás, sugere-se que os comunistas ajudem no desenvolvimento da burguesia nacional. Em consequência disso, no ano de 1958 o PCB mudou de nome, passando a se chamar de Partido Comunista Brasileiro, mantendo a sigla PCB. O partido reorganizou-se e passou a ter um perfil mais nacionalista e desenvolvimentista, deixando para uma outra fase qualquer pretensão de mudar nosso modo de produção, de capitalista para socialista. Considerava que primeiro era necessário desenvolver as forças produtivas nacionais ao máximo e só então socializar os fatores de produção. Para isso era necessário industrializar o Brasil e criar uma burguesia forte;
  3. Em 1960, integrantes do PCB que rejeitam as mudanças no partido fundam o PCdoB, para manter o nome original de Partido Comunista do Brasil, e seguem fiéis às orientações anteriores a 1958. Eles, na verdade, se consideram a continuidade do partido fundado em 1922. Daí pra frente, os comunistas seguiram divididos.

Ah, lembrei de mais uma coisa que costuma gerar dúvida: o PT é um partido comunista? Não. O PT está mais próximo de ser um partido Trabalhista ou um partido Social-Democrata, que defende a criação de um estado de bem-estar social, à semelhança do que existe em países como a Noruega, Dinamarca e Suécia, a partir da conciliação entre capital e trabalho e não da socialização dos meios de produção.

[FIM DA EDIÇÃO]
Post original:

Acabei de ver no Poder Online que o PCdoB fechou aliança com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, do DEM… isso, os “comunistas” do PCdoB se aliaram ao DEM.

Peraí… comunistas? Agora estou com dúvidas. Sérias dúvidas sobre isso.

Certa vez ouvi alguém se posicionar contra a cláusula de barreira pois ela prejudicaria partidos pequenos mas históricos e de importante representação ideológica, como o PCdoB. Pois bem, agora prova-se que não existe essa de partido ideológico. E o PCdoB provou-se tão ideológico quanto o Kassab (que diz não ser nem de direita, nem de esquerda, nem de centro).

Interessante, não?

Pena que a cláusula de barreira foi derrubada no STF, pois de partidos ideológicos como esse o país está cheio…

 

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