Notas sobre entrevista de Rodrigo Maia

Acabei de ler a entrevista que Rodrigo Maia concedeu ao Valor Econômico, via blog do Nassif.

Maia afirma que seu partido é de “centro-direita” e que seu alvo é a “classe média”. Ou seja, vão continuar a investir no discurso udenista de ameaça vermelha, redução do Estado e corrupção desenfreada que só eles, santos, poderão vencer. Esse discurso garante algum espaço político, mas limita seu voo, afinal, nós brasileiros somos conservadores mas os doidivanas se limitam a uns 30% dos eleitores (segundo o DataEU). Bem, isso é bom para os progressistas, pois quanto mais caricatos forem os udenistas, mas fácil derrotá-los nos níveis eleitorais que importam.

Mas a entrevista nos diz mais coisas interessantes.

A certa altura, quando perguntado sobre uma possível fusão com o PMDB, diz “Por que vou abrir mão de ter o poder de comandar um partido e ser o segundo ou terceiro quadro do PMDB?”

Isso nos diz que o DEM vai continuar a existir, mais pela “lei de Milton” do que por qualquer coisa… a lei de Milton diz: “melhor reinar no inferno que ser um súdito no Céu” (John Milton, Paraíso Perdido, Canto I). O controle de verbas partidárias, o acesso doadores de campanha (e seus recursos), o tempo de TV e a visibilidade que a mídia conservadora e panfletária lhes dão preenche o vazio de poder político real que os aflige, então, vão continuar assim. Nada melhor para afagar o ego que aparecer no Jornal Nacional por uns 15 segundos, né?

Sobre o PSDB, disse “Os dois partidos precisam trabalhar unidos”. Devem querer que os tucanos os ajudem a impedir o sepultamento do partido. Mas, será que os tucanos precisam deles? Se forem espertos, se afastarão do DEM… mas os tucanos não são tão espertos assim e, apesar de não precisarem de coadjuvantes udenistas (já que os tucanos têm capacidade de ser a UDN rediviva sem a ajuda de ninguém), vão acabar usando o DEM como caixa de ressonância para repetir suas “denúncias” (vide a tentativa de Álvaro Dias de ressuscitar o “escândalo dos cartões corporativos”).

A jornalista do Valor pergunta sobre Aécio… claro, a mídia panfletária vai entoar o mantra de que Aécio é imbatível até 2014, pois, como diria Gobbels, uma mentira repetida mil vezes vira verdade. E Maia, claro, repercute a vontade dos patrões da moça.

Curiosa foi a pergunta sobre a ideologia de Kassab. “Valor: Ele não discute posição ideológica?” E Maia responde “Não. Nunca discutiu, nunca foi a forma dele atuar”. Que papo é esse de ideologia? E lá a direita brasileira teve alguma ideologia maior do que se manter no poder a qualquer custo? Peço desculpas pois vou citar de memória, mas no livro Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, reproduz-se trecho de um deputado da República Velha que disse, “o governo pode ter mudado, mas eu sou um homem convicto de minhas posições, continuo governo”. Se vivo, tenho certeza que ele estaria indeciso entre o DEM e o PMDB. Aliás, o DEM só não se funde ao PMDB por causa da “lei de Milton”.

Ao longo da entrevista Maia sempre apela para o “eleitor da classe média”, que seria o típico eleitor do DEM. Será mesmo? Reconhecer que nossa classe média é conservadora é uma coisa, mas insistir nisso é ignorar a mobilidade social e as alterações sutis nesse perfil, pois, mesmo conservadora, a classe média já viu que o PT não come criancinhas, parte dela se tornou classe média sob administrações petistas e sempre houve um segmento da classe média muito progressista que apoiava o PT mesmo quando os conservadores temiam pela deglutição de suas criancinhas. E Dilma, por mais “durona” que seja, não lembra em nada um sindicalista barbudo e raivoso. Se seu governo obtiver sucessos econômicos, a classe média a adotará mais como uma Tatcher que como um Lula (nisso, é bom lembrar postagem do Paulo Cândido no Biscoito Fino e a Massa, onde se analisa a incorporação do discurso conservador pelo PT – o que facilita o encontro do PT com perte dessa classe média que o DEM almeja).

Ao final, vê-se que Maia não tem muito a dizer. Não houve palavra alguma sobre programa partidário nem mesmo ideologia, nada foi dito sobre propostas administrativas alternativas às atuais. É… sua entrevista só demonstra que a oposição não tem discurso, quando muito, só consegue se caracterizar como ‘contra’… não à toa a campanha presidencial passada acabou buscando os temas morais e carolas.

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