Egito 3 (a próxima será a Jordânia?)

Já escrevi dois posts sobre o Egito e gostaria de fazer mais um arranhãozinho na superfície da questão.

Li, nos comentários do post do Sakamoto, algumas pessoas repetindo que há o risco dos “radicais islâmicos” tomarem o poder. Na TV ouvi que o primeiro-ministro de Israel e outras autoridades ocidentais expressam o mesmo temor. Mas, isso procede?

O Vladimir Safatle, na Folha, não tem esse medo. Diz ele: “…na Tunísia, o maior movimento organizado por trás da revolta é um sindicato (União Geral dos Trabalhadores da Tunísia) e, no Egito, o grupo religioso Irmandade Islâmica [na verdade Irmandade Muçulmana] é apenas uma dentre várias organizações … (e) que não está na origem das manifestações…” (como não tenho assinatura da Folha, li isso no Macfa’s Blog)

Juan Cole, no Informed Comment, afirma que a Irmandade Muçulmana não apoia as manifestações, tendo-se limitado a liberar seus membros à participarem. Mas isso foi noticiado no dia 26 de janeiro. Hoje, 1º de fevereiro, com 2 milhões de pessoas nas ruas, a Irmandade certamente já mudou de ideia. De qualquer modo, ela não é protagonista dos eventos.

Como dito no meu post anterior, o protagonista é o próprio povo do Egito, que espontaneamente saiu às ruas para exigir mudanças. O lado frágil disso é que, sem líderes naturais, há incerteza sobre quem vai (ou pode) ficar com o espólio das movimentações. Há vários candidatos, como o ex-presidente da Agência Internacional de Energia Atômica, vinculada à ONU, Muhammad Elbaradei, mas que carecem de representatividade e legitimidade junto ao povo.

Cole acredita que Mubarak já está mais fraco. Comparando-o à situação do Irã, em que manifestantes questionaram a legitimidade das eleições que reconduziram Ahmadinejad ao poder, em 2009, percebe que o ditador egípcio não conta com a unanimidade dos militares a seu lado – e isso apesar dele ceder espaços de poder, com a nomeação do Gen. Omar Suleiman como vice-presidente ou do Gen. Mahmud Wagdy como Ministro do Interior. A decisão do exército de não enfrentar a marcha de hoje (que levou dois milhões às ruas!) indica que as forças armadas não querem se desgastar junto com o quase ex-presidente. E, parece-me, aponta para uma solução tranquila. Basta que o novo títere que assumir o poder se comprometa com os militares a manter o status quo da ajuda de 1,5 bilhão de dólares anuais dos EUA para que eles continuem a comprar seus brinquedinhos assassinos, mantenha-se um nível simpático de corrupção e os generais continuem em salas espaçosas e tenham maior influências nas decisões políticas.

Mas o efeito dominó também é interessante. Após protestos contra o elevado preço dos alimentos na Jordânia, o Rei Abdullah II promove alterações em seu ministério. Infelizmente, traz de volta um militar que já foi primeiro-ministro e não encarna muito bem o papel de reformador. Mas parece que já sabemos qual será a próxima peça desse dominó.

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