Tolerância religiosa 2

Ontem escrevi um post sobre tolerância religiosa, mas apenas começamos a arranhar o assunto… não que consigamos esgotar tema tão vasto, mas gostaria de fazer mais algumas observações.

No post sobre tolerância política defendi que devemos ser intolerantes com o mal-feito. Como talvez dissesse o Bobbio, faz-se necessário combater a tolerância negativa (ou complacente com o mal) por meio da firmeza naquilo que for certo – o que ele chamou de intolerância positiva.

Nas minhas considerações sobre a religião, considerei que precisamos de mais tolerância. Mas uma tolerância que não seja apenas “suportar o diferente”, e sim aceitá-lo plenamente, inclusive aceitando-o como diferente e não tentar reduzi-lo a uma outra forma do que nós somos (como talvez dissessem os antropólogos, não devemos reduzir “o outro ao mesmo”). Esse papo de que “todos os caminhos levam a deus/o divino/a verdade/etc.” não significa aceitar o outro, significa negá-lo.

Mas, mesmo aumentando-se a tolerância, há espaço para a intolerância positiva, afinal, por exemplo, não podemos tolerar a intolerância militante de certos grupos religiosos. É necessário combater toda forma de violência que usa a religião como desculpa.

Quem lembrou dos neopentecostais levante a mão… mas não são só eles. Na igreja católica há grupos intolerantes e, apesar de não conhecer casos no Brasil, certamente todos lembrarão dos talebãs e outros grupos islâmicos fundamentalistas. Taí a palavra ‘fundamentalista’. O problema é ser ‘fundamentalista’?

O que nos leva a outro assunto, o que é ser fundamentalista?

Se for apenas observar os fundamentos da religião, não me parece haver problema, desde que, é claro, esses fundamentos não preguem a violência. Dizem que nenhuma religião prega a violência… não sei se isso é verdade… mas não quero acusar ninguém…

De qualquer modo, hoje usa-se a palavra fundamentalista como sinônimo de intolerante. Esse uso talvez devesse ser evitado, pois confunde aquele que conhece e adota os fundamentos de sua religião com aquele que usa esses mesmos fundamentos de modo intolerante. O problema, parece-me, não são os fundamentos, mas a intolerância negativa – aquela que nega e rejeita completamente o outro.

A confusão entre fundamentalista e intolerante pode não ser casual. Não que eu esteja denunciando uma conspiração dos incas venusianos, mas fazer essa confusão pode ajudar a dar a impressão que observar os preceitos de sua religião é necessariamente ruim e leva à intolerância negativa. Do tipo, você até pode ser religioso, desde que não seja fundamentalista. Quando na verdade você até pode ser fundamentalista, desde que não seja intolerante. O problema é a intolerância, seja ela militante, seja ela a sutil “redução ao mesmo”.

A rejeição ao fundamentalismo pode favorecer a ideia de que o adequado é reduzir a vivência religiosa ao mínimo, que ler os livros de auto-ajuda do Dalai Lama é o mais profundo que você deve mergulhar em temas religiosos. E o problema disso é justamente que reduz a religião a um mero conjunto de conselhos sobre como ser feliz, quando religião é muito mais do que isso.

Claro, aqui surge outro problema. As religiões trabalham com uma ideia exclusiva de Verdade (com ‘v’ maiúsculo). Cada fundador encontrou ‘O’ caminho… e se ele é ‘O’ caminho, naturalmente há uma exclusão das outras vias, que não sendo a Verdade, só podem ser mentiras.

É… parece que Dawkins tem razão e a religião é a raiz de todo o mal… bem, será mesmo? Creio (e aí é no campo da fé mesmo) que a intolerância negativa é a raiz de todo o mal e que essa intolerância pode se imiscuir no coração de toda religião e de todo religioso. Cabe, então, a cada religioso ultrapassar sua religião ou enriquecê-la com uma boa dose de humanismo, para impedir a propagação daquele veneno. Mas isso implica, também, que cada religioso deve ser capaz de pensar “out of the box” e entender sua religião como um trabalho inconcluso. Significa aceitar que não há Verdade com ‘v’ maiúsculo.

O que levanta mais uma questão: abandonar a ideia de Verdade com ‘v’ maiúsculo não significa reduzir a religião a um mero conjunto de preceitos éticos com metafísica vaga? Um “mero conjunto de conselhos sobre como ser feliz”?

Nossa, que assunto complicado…

Mas talvez a solução seja viver na corda bamba, não reduzir a religião a ponto de nega-la, nem entregar-se a ela a ponto de negar a possibilidade da diferença.

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