tolerância religiosa

O meu post sobre tolerância política me fez pensar sobre a tolerância religiosa.

Será que o Brasil é um país tolerante em questões religiosas?

O ex-governador de SP, Cláudio Lembo, acha que sim.

Eu tenho lá minhas dúvidas.

Vejamos um exemplo singelo. No aeroporto de Brasília há uma “capela ecumênica”. Bem, a palavra capela denomina um pequeno templo ou oratório e, apesar de sua etimologia se remeter a uma relíquia cristã, admito que o ‘ecumênica’ me enganou, afinal ecumênico quer dizer “de todo o mundo”. Logo, pensei que uma capela ecumênica seria um lugar tranquilo onde pessoas de qualquer religião pudessem se sentar, refletir um pouco, constatar que seu medo de avião é uma bobagem diante do grande esquema do universo e coisa e tal, certo?

Errado!

Na tal capela há um enorme crucifixo.

Após um segundo de choque, percebi que muçulmanos, judeus, budistas, animistas, xintoístas, hindus, jainistas, panteístas, teístas-não-necessariamente-cristãos e afins não eram bem-vindos, afinal, a cruz é o símbolo de uma religião e não um símbolo  “de todo o mundo” (ecumênico).

Alguém pode dizer, deixa de ser chato, uma cruz não significa nada. Mas a verdade é que significa sim. Significa que aquela capela aceita todo mundo, desde que cristão. E se há um desde que, há uma seleção.

Esse mesmo alguém poderia dizer, mas o que é que tem? O cristianismo é a religião da maioria dos brasileiros, logo, nada mais natural que haver símbolos cristãos por aí – já ouviu falar do Cristo Redentor no Rio de Janeiro?

Tá, mas as minorias não têm direitos?

Lembro de um templo budista no interior do Paraná que foi proibido de tocar seu sino pois os fiscais da prefeitura diziam que os budistas não passavam de uma ínfima minoria e o barulho incomodava a vizinhança (sem link pra notícia pois isso não foi noticiado e eu mesmo só fiquei sabendo porque o sacerdote responsável pelo templo me contou).

Peguemos outros exemplos, no Plenário da Câmara dos Deputados, no do Senado e em todos os tribunais e repartições públicas é fácil achar um crucifixo e ai de quem tentar retirá-los. É bom lembrar que nosso Estado deveria ser laico, assim, ou põe os símbolos de todas as religiões que aparecerem no censo ou não põe de nenhuma.

Se me permitem, vou dar uma nota pessoal. Sempre que me perguntam minha religião e respondo que não sou cristão, logo me perguntam, mas, o que Jesus significa para vocês? Bem, como não somos cristãos, respondo com outra pergunta, do tipo, o que Krishna/Thor/Mahíra/o-deus-que-me-vier-na-telha-na-hora significa pra vocês cristãos? E meu interlocutor sempre me olha de modo meio suspeito… nunca sei se ele teme por minha alma arder no inferno ou se ele quer me denunciar à inquisição.

Outra tendência é tentar uniformizar tudo. Alguns gostam de dizer, no fundo as religiões pregam todas a mesma coisa, mas isso não é verdade. O Paraíso dos muçulmanos não é necessariamente o mesmo dos cristãos, os jainistas nem têm bem um Paraíso, os budistas têm vários, mas viver neles não é o objetivo final. Tentar reduzir tudo a nós mesmos é uma forma de intolerância. E nesse ponto os “espiritualizados mas sem uma religião” são os mais intolerantes. A redução da rica e bela diversidade à ideia de uma “unidade subjacente” é  a melhor estratégia excludente já criada. E o intolerante travestido de eclético ainda posa de sábio, tolerante e superior.

Aparentemente, não temos segregação, do tipo demitir não-cristãos ou preterí-los na concorrência por uma vaga de trabalho… aparentemente… mas sinto que apenas toleramos, apenas suportamos o diferente. Não o aceitamos. E chegamos a fingir que ele  não existe sob o falso e violento discurso inclusivo do “é tudo a mesma coisa”. Nesse sentido, o Cládio Lembo está errado. Nada temos a ensinar ao mundo sobre tolerância religiosa.

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