Cartas de Madre Teresa

“Senhor, meu Deus, quem sou para que me abandones? A criança de seu amor – e agora torno-me semelhante à mais odiada – àquela que lanças fora como indesejada – não-amada. Eu chamo, apego-me, desejo – e não há ninguém para responder – ninguém a quem possa me apegar – nada, ninguém. – Sozinha… onde está minha fé – mesmo [procurando] profundamente [em minha fé] não há nada, a não ser vazio e escuridão – Meu Deus – como é dolorosa esta indescritível aflição – Eu não tenho fé – eu não ouso expressar as palavras e pensamentos que pululam em meu coração – e me fazem sofrer indescritível agonia.
‘Tantas questões não respondidas vivem em mim, temerosa de descobrí-las – por causa da blasfêmia – Se há um Deus – por favor, perdoe-me – quando tento elevar meus pensamentos aos Céus – há tanta culpa e vazio que estes mesmos pensamentos retornam como facas afiadas e ferem minha própria alma. – Foi-me dito que Deus me ama – e mesmo assim, a realidade das trevas, frieza e vazio é tão grande que nada toca minha alma. Será que cometi um erro rendendo-me cegamente ao chamado do Sagrado Coração?“*

Essas palavras foram escritas por Madre Teresa de Calcutá em uma carta endereçada a seu confessor.

Essa e outras cartas estão publicadas no livro ‘Madre Teresa: Come be my light’ , organizado pelo padre Brian Kolodiejchuk, responsável pelo pedido de canonização de madre Teresa.

Em 1948, a freira que pertencia à Irmãs de Loreto, obteve autorização para fundar uma nova congregação – as “Missionárias da Caridade”.

Internacionalmente conhecida por sua ação social, a madre ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1979.

Sua ações certamente a colocam como uma heroína da caridade e da ação social, mas sua mente apresentava-se cheia de dúvidas quanto a sua missão espiritual. Em outra carta, escreveu: “Pelo que eu trabalho? Se Deus não existe – não pode haver alma – se não há alma, então Jesus – Você também não é real”**

O padre Kolodiejchuk considera que esta foi a “noite escura do espírito”, de que fala São João da Cruz, e pela qual teria passado a religiosa.

Nessa perspectiva, a falta de fé – pois é disso que tratam as cartas – seria um tipo de teste. O próprio Deus, com Seu silêncio, voluntariamente contribuiria para as dúvidas de Seus instrumentos (os santos), que, assim, acabariam retirando das dúvidas, certezas, pois ao fim da noite escura, mesmo “sin otra luz y guia [… e] en parte donde nadie parecía” (“sem outra luz e guia [… e] em sítio onde ninguém aparecia”), a alma e Deus se reconciliariam.

Padre Kolodiejchuk lembra que teólogos católicos reconhecem dois tipos de “noite escura”: purgativa e reparativa. A primeira serve como purificação do(a) religioso(a) para a “união final” com Cristo; a segunda continua mesmo após tal união, para que o(a) religioso(a) possa participar da união com Cristo de um modo ainda mais puro e mais parecido com a união de Jesus e Maria que, mesmo sem pecados, sofreram pela salvação humanidade.

Em 1951 madre Teresa escreveu: “Eu quero… beber APENAS [ênfase dela] de Seu cálice de dor” (“I want to … drink ONLY [her emphasis] from His chalice of pain”).

O cristianismo, em quase todas as suas vertentes, possui na crucificação o ponto central de sua doutrina. Na crucificação, o Pecado Original foi redimido pelo sacrifício do cordeiro. Apenas a crucificação reabriu as portas do Éden, trancadas à humanidade após a desobediência de Adão e Eva, que comeram do fruto proibido.

A partir daí, a dor passa a ocupar um lugar central na teologia cristã – “todos também temos de carregar a nossa cruz”, não é?

Essa teologia propõe que as “ansias en amores inflamada” (“angústias em amores inflamada”) são, na verdade uma “dichosa ventura” (“ditosa ventura”). Não só algo normal mas mesmo necessário ao caminho da santidade.

Se Cristo sofreu, os santos, que seguem um caminho de imitatio Christi, também devem sofrer.

O padre Kolodiejchuk vê uma necessidade espiritual nas dúvidas de madre Teresa. Ele diz que “ela possuía uma personalidade muito forte. E uma personalidade forte precisa de uma purificação ainda mais forte” como um antídoto para o orgulho.

Como sou budista, este caminho de sofrimento e angústia parece-me sem sentido pois apenas realimenta a experiência de dukkha (angústia existencial/sofrimento).

Só pra lembrar, o Buda disse: “Tanto antes como agora, eu declaro somente o sofrimento (dukkha) e a cessação do sofrimento (dukkha)” (SN XXII. 86).

O caminho que sigo não me propõe a redenção pelo sofrimento, mas a superação do sofrimento.

Outro conceito budista, o de karma (ou kamma), nos diz que nossas ações nos definem – há um ditado budista que diz “minhas ações são meu único pertence verdadeiro, elas são o chão sobre o qual eu piso”.

Nessa perspectiva, as ações de madre Teresa aparecem, sem dúvidas, como kusala kamma (bom karma/karma hábil ou habilidoso) e seus frutos certamente também são kusala vipaka (bons frutos).

Mas um dos componentes do karma é a intenção.

A intenção de madre Teresa era a salvação das almas (“A sede que tinhas por almas te trouxe tão longe – Tens medo de dar mais um passo por teu Esposo – por mim – por almas?” (“The thirst you had for souls brought you so far — Are you afraid to take one more step for Your Spouse — for me — for souls?” – oração em forma de diálogo entre madre Teresa e Jesus descrita ao Arcebispo Ferdinand Périer em Janeiro de 1947 como parte do processo para obtenção de autorização papal para a constituição da congregação das Missionárias da Caridade).

O cuidado físico dos carentes era apenas parte deste trabalho.

Há registros que a madre recusava-se a dar analgésicos a pacientes moribundos para que eles morressem dolorosamente em semelhança a Cristo e com isso pudessem se purificar para merecer a Salvação (ver o livro ‘The Missionary Position’, de Christopher Hitchens). Desse modo, esse cuidado inseria-se numa perspectiva espiritual que ultrapassava (ou ignorava?) o humanismo e mesmo o humanitário.

O atendimento médico era apenas um meio para alcançar as almas das pessoas e garanti-las para saciar a ‘sede de Cristo’.

A ação de caridade deve ser vista como meritória, mas não se pode perder de vista a intenção que a perfumava, pois só assim pode-se ter uma visão mais completa do que movia a madre e do tamanho de sua angústia.

E novamente percebemos como sua angústia devia ser enorme, pois seu objetivo era muito mais que ajudar os doentes – era salvar suas almas -, e suas dúvidas minavam a base de seu trabalho – “se não existe Deus, não existem almas”. Em 1956, escreveu madre Teresa “[A salvação das] almas não tem nenhuma atração – o Céu não significa nada – reze por mim, por favor, para que eu continue e sorrir para Ele a despeito de tudo”***

A despeito de suas dúvidas, que até em 1995 a fizeram escrever sobre sua “secura espiritual”, seu trabalho missionário continuou até sua morte, em 1997.

Em 1962 ela escreveu que “Se algum dia em me tornar uma Santa – irei, com certeza, ser uma das ‘trevas’. Eu continuarei ausente dos Céus [do Paraíso] – para acender a luz daqueles nas trevas da Terra”.

Mas, que ‘luz’ é essa?

A luz de madre Teresa é o fim da ‘noite escura’, a reconciliação com Seu Esposo, Jesus, o cordeiro sacrificado na cruz pela remissão dos pecados. Compartilhar eternamente da presença de Deus – um Deus inescapavelmente antropomorfo, que ama, cuida e se importa, mesmo quando provoca dor com Seu silêncio. Aliás, provocar a dor seria a prova de seu amor. Um deus que tem sede de almas torturadas.

Não me entendam mal. Com certeza madre Teresa foi um ser humano excepcional – acredito que a palavra ‘Santa’ não poderia ser aplicada a melhor pessoa, mas entristece-me percebe-la tão angustiada ao longo de sua vida.

É digna de admiração sua persistência, mesmo sem fé, no trabalho de caridade.

Mas não consigo deixar de pensar que suas ações teriam se dado sem tantas angústias se elas fossem motivadas apenas para o auxílios aos seres, ao invés da busca de almas para um deus que, de fato, não está lá.

Ou, se está e gosta de testar a fé das pessoas infundindo-lhes angústias profundas por décadas enquanto essas mesmas pessoas fazem apenas o bem, …  prefiro ficar longe desse deus.

*Lord, my God, who am I that You should forsake me? The Child of your Love — and now become as the most hated one — the one — You have thrown away as unwanted — unloved. I call, I cling, I want — and there is no One to answer — no One on Whom I can cling — no, No One. — Alone … Where is my Faith — even deep down right in there is nothing, but emptiness & darkness — My God — how painful is this unknown pain — I have no Faith — I dare not utter the words & thoughts that crowd in my heart — & make me suffer untold agony.
So many unanswered questions live within me afraid to uncover them — because of the blasphemy — If there be God — please forgive me — When I try to raise my thoughts to Heaven — there is such convicting emptiness that those very thoughts return like sharp knives & hurt my very soul. — I am told God loves me — and yet the reality of darkness & coldness & emptiness is so great that nothing touches my soul. Did I make a mistake in surrendering blindly to the Call of the Sacred Heart?

**”What do I labour for? If there be no God — there can be no soul — if there is no Soul then Jesus — You also are not true

*** “Such deep longing for God — and … repulsed — empty — no faith — no love — no zeal. — [The saving of] Souls holds no attraction — Heaven means nothing — pray for me please that I keep smiling at Him in spite of everything.

P.S.: todas as citações das cartas e do padre Kolodiejchuk foram retiradas da reportagem “Mother Teresa’s Crisis of Faith da Revista Time

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